Fernanda Nogueira, a pintora de almas

Estivemos à conversa com a autora das obras que temos expostas no nosso Centro.

De riso fácil e voz doce, Fernanda concedeu-nos uma entrevista em jeito de conversa longa num dia cinzento, daquelas acompanhadas de bule de chá e biscoitos. Confessou-se nervosa mas não teríamos dado por nada se não nos tivesse dito. “Estou habituada a lidar com o público enquanto desenho e adoro trabalhar com as pessoas, nisso estou à vontade. Agora em situações destas…”

Tornou-se artista por uma sequência de acasos, que na altura nem pareciam ser tão felizes assim. Viveu toda a vida em Águeda, no norte do país, onde trabalhava com Línguas, primeiro como professora e depois como tradutora. Gostava do que fazia e sentia-se realizada. O desenho era “uma paixão” que a acompanhava desde sempre, mas “apenas como um hobby, um prazer pessoal”, explicou-nos.

Já depois dos 50 anos, Fernanda tomou uma decisão transformadora: mudou-se para o Algarve. Mal sabia que atrás desta mudança viria outra igualmente arrebatadora. “Na altura mudei-me por uma proposta de trabalho com excelentes condições, na área da hotelaria”. Durante os meses em que trabalhou no hotel, desenhava no lobby de entrada durante as horas livres, e tanto colegas como hóspedes elogiavam os retratos que fazia. “As encomendas começaram a surgir, mas eu continuava a ver o desenho como um passatempo só meu.

O trabalho no hotel acabou por se revelar uma desilusão e terminou ao fim de uns meses, pelo que Fernanda se viu desempregada e sem grandes planos para o futuro. Agarrou-se à arte, o amor de uma vida, sem saber onde a levaria aquela estrada. Mas não foi com espanto que se apercebeu, com o passar do tempo, que desenhar passara a ser a sua ocupação primeira. “Os pedidos e encomendas foram ganhando expressão e fui levando isto a sério, cada vez mais”.

Hoje faz aquilo de que gosta. Não se arrepende dos anos que passou a trabalhar em Línguas, mas confessa: “Esta é a minha vocação. Dá-me muito gosto desenhar, captar num retrato o que a pessoa está a sentir no momento, aquela expressão.” E explica que não prefere os sorrisos às lágrimas e a perfeição à honestidade: “As crianças tristes ou despenteadas, por exemplo, dão retratos lindos, porque é aquele pequeno detalhe o que embeleza uma peça”.

São justamente as crianças que lhe dão mais gozo desenhar, pela doçura e sinceridade do olhar. “Mas também gosto muito de fazer os retratos de pessoas de idade. Aliás, as pessoas que mais gostei de desenhar eram velhas. Uma delas, o ator Ruy de Carvalho, que me fez um elogio que me marcou muito. Escreveu-me que dar personalidade e ser fiel ao retratado era obra de Artista, mas Artista mesmo com letra grande. Senti-me lisonjeada. O segundo retrato que mais me marcou foi de um escritor que aos 90 anos tinha uma cara cheia de rugas mas um sorriso maroto. A vida toda escrita naquelas rugas e depois aquele sorrisinho. É especial.”

São os detalhes que procura em cada pessoa que desenha que lhe permitem chegar a quem aquela pessoa é. Por isso, acredita que os olhos são mesmo o espelho da alma e que pintor e pintado se unem no momento de concretizar um retrato. “É uma troca de sentimentos, é interpretar o que o outro está a sentir e pô-lo ali da forma como o vejo, com a minha sensibilidade.”

O trabalho da sensitiva Fernanda Nogueira está agora, e até dia 15 de abril, em exposição no nosso Centro. São vários retratos a grafite e a pastel, expostos todos os dias, no piso 1, junto à entrada da restauração.

Mais, terá ainda a oportunidade de conhecer a artista e de vê-la de lápis na mão, aos sábados entre as 11h e as 15h e aos domingos entre as 10h e as 13h. Apareça para ver a exposição e comova-se com estas almas pintadas à mão. Ficamos à sua espera!

 

 

Publicação
18 de Abril de 2018
Categorias
Cultura
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